terça-feira, 29 de dezembro de 2009
Collor e o Impeachment
O ex-presidente Fernando Collor de Mello negociou sua renúncia antes de ser deposto por impeachment, em 1992. A revelação é feita agora, 17 anos depois, pelo deputado federal Mauro Benevides (PMDB-CE). Presidente do Senado à época, o parlamentar lembra com detalhes a reunião que teve no dia 27 de dezembro daquele ano, antevéspera do impedimento de Collor, quando foi procurado pelo ex-ministro da Justiça Célio Borja, do chamado Ministério Ético de Collor. Borja fora enviado para acertar a renúncia de Collor à Presidência da República e evitar a perda de seus direitos políticos. À mesa, também estava o presidente do Supremo Tribunal Federal, Sydney Sanches. Segundo Benevides, o assunto da conversa, dois dias antes da votação do impeachment, os surpreendeu. Afinal, Collor jamais admitira renunciar à presidência. A revelação consta da biografia que o deputado escreve sobre sua trajetória política. - Estávamos prontos para votar o impeachment quando o ministro Célio Borja nos procurou. Quando ele disse que o presidente Collor queria renunciar, nós concordamos. Não havia mais riscos para o vice-presidente Itamar Franco não assumir o cargo e aceitamos o trato - conta Benevides. Presidente da Câmara à época, o deputado Ibsen Pinheiro (PMDB-RS) confirma a negociação. - É verdade. Há muito pouco de bastidor a ser contado sobre aqueles dias simplesmente porque praticamente não havia bastidores. Havia o desejo de se cassar o mandato do Collor por sua arrogância e pelas denúncias que surgiram ao longo do processo. Ele teve uma inabilidade política poucas vezes vista na História, sendo cassado mesmo tendo tido a maioria parlamentar - diz Ibsen. No dia 29 de setembro, o deputado comandou a sessão que aprovaria a abertura do processo de cassação, com 441 votos a favor, 38 contrários e 23 abstenções. Entretanto, faltou combinar com os 81 senadores o acordo que se fez no dia 27 de dezembro. - Virei-me para o Sydney Sanches e concluímos que aquilo resolvia tudo. Era aceitar a renúncia e encerrar a história - lembra Mauro Benevides. Dois dias depois, no dia da votação do impeachment, Fernando Collor apresentou sua carta de renúncia, pronto para escapar de perder seus direitos políticos por oito anos, conforme havia negociado. Era o último tiro do homem que prometera acabar com a inflação com um único disparo. "Levo ao conhecimento de Vossa Excelência que, nesta data, e por este instrumento, renuncio ao mandato de presidente da República, para o qual fui eleito nos pleitos de 15 de novembro e 17 de dezembro de 1989", escreveu ele na carta. Mas ao contrário do que acontecera com Jânio Quadros em 1961, o Senado não a aceitou. - A renúncia estava aceita, mas acho que os ânimos estavam tão exaltados que não houve como evitar a sessão. Todos queriam votar - diz Benevides. A sessão de votação foi comandada por Sanches e terminou com 76 votos a favor e cinco contra o impeachment. Oito anos depois, em 2000, Collor candidatou-se a prefeito de São Paulo, mas foi impedido de concorrer pela Justiça Eleitoral. Em 2004, tentou o governo de Alagoas e perdeu. Eleito senador em 2006, com apenas 30 dias de campanha, prepara agora uma nova candidatura a governador. Perguntado sobre o risco de o país ter um novo Collor na presidência, Ibsen responde sem dúvidas. - Esse risco sempre há. Ele acabou de voltar, não? Procurado, o senador Fernando Collor não quis falar sobre o processo de impeachment. Sydney Sanches e Célio Borja não foram localizados.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário